Tyler Bahl não fugiu da pergunta. Questionado pelo The Game Business sobre o remake de The Legend of Zelda: Ocarina of Time, que sai no meio do caminho entre Call of Duty e GTA 6, o chefe de marketing da Activision respondeu: “Bem, sem ofensa a Zelda, mas [GTA 6 e Modern Warfare 4] são os dois maiores jogos do ano” (tradução livre).

A frase correu a imprensa de games entre 15 e 16 de outubro — Insider Gaming, VGChartz, Nintendo Everything e VGTimes repercutiram — e tem dois lados. Um é a provocação aos fãs da Nintendo, que rendeu as manchetes. O outro interessa mais a quem acompanha GTA 6: a Activision diz ver vantagem em lançar perto da Rockstar, enquanto boa parte do mercado preferiu sair da frente.

Quatro semanas, três lançamentos

Os jogos citados na conversa caem num intervalo de menos de um mês:

DataJogoPlataformas
23 de outubroCall of Duty: Modern Warfare 4PS5, Xbox Series X/S, PC e Switch 2
5 de novembroThe Legend of Zelda: Ocarina of Time (remake)só Switch 2
19 de novembroGTA 6PS5 e Xbox Series X/S

Datas segundo VGTimes, VGChartz e Nintendo Everything. O VGTimes informa ainda que o acesso antecipado à campanha de MW4, para quem fez a pré-venda, abriu em 16 de outubro.

São cerca de duas semanas entre um e outro, e por isso a imprensa americana passou a comparar a temporada ao “Barbenheimer” de 2023, quando Barbie e Oppenheimer estrearam juntos nos cinemas e um puxou a bilheteria do outro. O Insider Gaming lembra que a pergunta a Bahl veio justamente nesse clima.

Mais gente no console, mais gente vendo Call of Duty

A parte menos citada da entrevista é a que explica a frase. Bahl disse que, se GTA 6 fizer mais gente voltar ao Xbox ou ao PlayStation, isso significa “mais olhos para nós no geral” (tradução livre, via VGChartz). O Insider Gaming resume o raciocínio: o jogo da Rockstar traria de volta jogadores afastados e atrairia compradores de console novos, e parte deles acabaria esbarrando em Call of Duty.

Na nossa leitura, a aposta faz sentido com o que se viu até aqui. A Circana registrou o agosto mais fraco em vendas de consoles nos EUA desde 2013, e analistas tratam GTA 6 como o evento capaz de mexer nesse número. Ao mesmo tempo, poucas editoras quiseram dividir a data com a Rockstar — uma das raras exceções foi Goat Simulator 3, que marcou a expansão Dizzyworld para o mesmo 19 de novembro. A Activision não está no mesmo dia, mas está a quatro semanas, e diz que gosta disso.

Bahl também tentou separar os dois produtos. O que mantém Call of Duty de pé há tanto tempo, disse, é “a comunidade e a experiência social”: segundo ele, os jogadores contam que a parte de que mais gostam não é o tiroteio, e sim o fato de que “meus amigos estão lá” (traduções livres, via Nintendo Everything e Insider Gaming). É um recado com endereço. GTA 6 chega como campanha para um jogador, e a Rockstar ainda não confirmou quando sai o modo online.

O dado que complica a provocação

O Nintendo Everything trouxe o número que relativiza a frase. Mat Piscatella, analista da Circana, publicou no Bluesky que, em agosto, 15% dos jogadores de console e PC nos EUA tinham intenção de comprar Modern Warfare 4, contra 10% para Ocarina of Time.

Parece vitória folgada de Call of Duty, mas o próprio Piscatella fez a ressalva: a conta considera toda a base de console e PC, e bem menos americanos têm um Switch 2 do que um PS5, um Xbox ou um PC gamer. Contando só quem pode de fato comprar Zelda, o interesse pelo remake seria bem maior. O VGTimes acrescenta, citando o analista, que a expectativa por MW4 está abaixo da que havia por Black Ops 7 no ano passado.

GTA 6 não aparece nesse recorte nas fontes que lemos, então não dá para pôr os três lado a lado num número só.

Uma Activision tentando se recuperar

O contexto ajuda a entender o tom confiante. Bahl admitiu ao The Game Business que a empresa não ficou “feliz com todos os aspectos do jogo do ano passado” e que ouviu as críticas “alto e claro”; Modern Warfare 4, segundo ele, marca a volta a “um shooter militar realista” (traduções livres, via VGChartz). O mesmo texto do VGChartz registra que a Activision deixará de lançar dois jogos seguidos da mesma subsérie e que um título futuro abrirá uma subfranquia nova. Bahl ainda citou números da marca: 500 milhões de unidades vendidas, 100 milhões de jogadores no modo gratuito e 1 bilhão de downloads no celular.

Ou seja: a Activision chega a outubro tentando reconquistar quem se decepcionou com Black Ops 7 e, em vez de fugir de GTA 6, preferiu se colocar ao lado dele no pódio. É fala de marketing — dita pelo chefe de marketing — e merece ser lida assim.

E para quem joga no Brasil?

Para o jogador daqui, o calendário pesa mais do que o ranking. Quem pretende comprar os dois lançamentos grandes tem quatro semanas entre um e outro para organizar o orçamento; quem tem Switch 2 ainda encaixa Zelda no meio. Do lado de GTA 6, vale lembrar que o jogo não terá dublagem em português, só legendas, e que o pré-carregamento digital libera em 12 de novembro, uma semana antes do lançamento.

O que ficou de fora

Nas fontes que lemos, Bahl não fala de metas de venda para MW4 nem comenta qualquer conversa com a Take-Two ou a Rockstar sobre datas. Também não conseguimos abrir a íntegra da entrevista no The Game Business: as citações acima vêm das reproduções de Insider Gaming, VGChartz e Nintendo Everything, que batem entre si. O cargo varia conforme o veículo — a maioria fala em chief marketing officer; o Nintendo Everything usa “marketing director”.