Um arquivo de 113,90 GB com a Lucia na miniatura, à venda em sites de torrent como se fosse GTA 6 para PC. Quase tudo ali dentro era espaço vazio; o que importava cabia em uns 50 KB — um programa que mexe na lista de exclusões do Windows Defender para ele parar de vigiar o disco C: e tenta derrubar outros antivírus. O caso foi destrinchado pelo TechTudo em agosto, a partir da análise de um pesquisador no X, e é o retrato mais claro do tipo de armadilha que cresce à medida que 19 de novembro se aproxima.
Agora o aviso saiu da imprensa de games. No domingo, 18 de outubro, a CBS News Miami exibiu uma reportagem de Anna McAllister com um recado direto aos moradores da cidade que inspirou Vice City: quem oferece GTA 6 antes da hora está tentando roubar você.
O que a TV de Miami contou
O entrevistado foi Chris Mawson, fundador e editor-chefe do site Power Up Gaming. Ele descreve o roteiro mais comum: um anúncio em rede social promete acesso antecipado mediante pagamento, a pessoa paga, instala e — nas palavras dele — "it turns out to be malware or a virus" (tradução livre: "acaba sendo um malware ou um vírus"), o que abre caminho para o roubo de dados e de dinheiro. Para Mawson, o lançamento é "a generational event in the gaming industry", um evento de geração, e é justamente o medo de ficar de fora que os golpistas exploram.
As dicas da reportagem são as de sempre, mas vale tê-las juntas: não clicar em link de download em rede social, comprar só no site da Rockstar ou numa loja conhecida, fazer a pré-venda por varejista legítimo e pagar com cartão de crédito, não com criptomoeda — que é bem mais difícil de recuperar. A CBS ainda ouviu Oscar Chiffone, fã que mora em Miami: "It's a long-awaited game, it's in my hometown" ("é um jogo muito esperado, se passa na minha cidade"). Ele vai esperar o lançamento oficial.
O GTA BOOM repercutiu a reportagem no mesmo dia e lembrou o contexto: Miami está coberta de marketing oficial do jogo, do letreiro "Welcome to Vice City" no teto do Kaseya Center a um comboio de carros com pintura de GTA 6 rodando pela cidade. Quanto mais o jogo aparece na rua, mais gente procura por ele — e mais isca existe.
Pré-carregamento existe; jogar antes, não
Aqui há um ponto em que a própria reportagem da CBS escorrega. No texto, a orientação de Mawson aparece como "there is no way to preload or get early access to the game" — não há como pré-carregar nem ter acesso antecipado. A segunda metade está certa. A primeira, não exatamente.
O pré-carregamento oficial começa em 12 de novembro, uma semana antes do lançamento, para quem fez a pré-venda — a informação foi divulgada junto com as edições, em junho, e repercutida pela Screen Rant (via OpenCritic). Só que pré-carregar não é jogar: os arquivos ficam no console, travados até o dia 19.
Na nossa leitura, essa nuance importa porque vira isca. "Libere seu pré-carregamento agora", "baixe os arquivos antes de todo mundo" são frases que soam plausíveis justamente por conterem algo real. A regra prática é simples: o pré-carregamento acontece dentro da PlayStation Store ou da Microsoft Store, na biblioteca da sua conta, a partir de 12 de novembro. Nenhum link de Instagram, Discord ou WhatsApp faz isso por você — e nada roda no PC, já que o jogo sai só para PS5 e Xbox Series X|S.
No Brasil, o golpe pede CPF e Pix
O alerta de Miami é genérico; o daqui tem sotaque. Em julho, a Kaspersky mapeou campanhas em português mirando fãs brasileiros, num levantamento noticiado pelo News Rondônia. O pesquisador-chefe de segurança da empresa para a América Latina, Fabio Assolini, atribuiu o fenômeno ao ambiente que todo grande lançamento cria, e chamou a atenção para dois riscos bem locais: o Pix e o hábito de digitar o CPF em qualquer cadastro. Três modelos de golpe apareceram:
- Loja falsa de pré-venda. A versão mais elaborada copiava o visual da PlayStation Store, com imagens do jogo, avaliações de usuários e um checkout de aparência legítima. Pedia CPF, telefone e pagamento por cartão ou Pix. Quem pagava não recebia nada.
- Beta falso. Um suposto instalador de teste do jogo que, na verdade, entregava um programa para roubar senhas e documentos. A Rockstar nunca abriu beta nem acesso antecipado.
- Cripto com a cara de GTA. Páginas promovendo um token usando a identidade visual da série e pedindo que a vítima conectasse a carteira de criptomoedas — o que pode esvaziar tudo o que está guardado nela.
O assunto ganhou fôlego extra com os vazamentos atribuídos ao Cyberleek, que despejou vídeos de gameplay ao longo de setembro e outubro: cada vídeo novo vira pretexto para um "download da build vazada". Não existe build pública. O que circula como tal é o arquivo de 113 GB do começo deste texto, ou algo parecido.
Se você já clicou
O TechTudo dá o passo a passo para quem rodou um desses arquivos no PC: desfazer as alterações nas exclusões do Windows Defender, fazer uma varredura completa com um antivírus confiável e conferir se os outros programas de segurança continuam funcionando. Quem só baixou deve apagar o arquivo e rodar a varredura do mesmo jeito. Se você digitou senha num site falso, troque-a — e ative a verificação em duas etapas na conta da PSN ou da Microsoft.
Se pagou por Pix, procure o banco imediatamente e registre a fraude: em golpe com transferência instantânea, cada hora conta. Com cartão, a contestação costuma ser mais simples — é o mesmo motivo pelo qual Mawson, lá em Miami, recomenda o cartão em vez de cripto. Uma dica extra da Kaspersky que funciona bem aqui: cartão virtual para compras online.
Quanto custa o jogo de verdade
Vale como régua contra oferta milagrosa: na PlayStation Store e na Microsoft Store brasileiras, a edição Standard sai por R$ 449,90 e a Ultimate por R$ 549,90, preços oficiais desde a abertura da pré-venda, em 25 de junho. Varejista pode dar desconto, mas uma "chave" de GTA 6 por R$ 79 num perfil de rede social não é promoção. E nenhum preço, alto ou baixo, compra o jogo antes de 19 de novembro.
