O selo japonês veio com só dois ícones: crime e violência. Para um jogo que a Austrália, a Nova Zelândia e a ESRB descrevem com cenas de sexo, nudez e drogas, é pouco — e foi exatamente esse detalhe que fez a imprensa japonesa levantar a pergunta que ninguém respondeu ainda: o GTA 6 vendido no Japão será o mesmo do resto do mundo?

A nota em si não surpreende. A CERO, órgão japonês de classificação, deu ao jogo a faixa Z, a mais restrita do país, que proíbe venda e aluguel para menores de 18 anos. O selo apareceu nas páginas japonesas da PlayStation Store e da Microsoft Store por volta de 17 de outubro, depois de um período em que o jogo aparecia como "em análise". Um dia antes, a Inven Global noticiou que a Coreia do Sul também havia liberado o GTA 6 apenas para adultos. Com os dois, não sobra nenhum grande mercado sem classificação a pouco mais de um mês do lançamento, em 19 de novembro.

A dúvida japonesa

O site Game*Spark, citado por veículos chineses como o IT之家, lembrou que a Rockstar não disse se a versão japonesa terá diferenças em relação à internacional. O precedente pesa: o GTA V também recebeu CERO Z e, mesmo assim, chegou ao Japão com cenas de violência e de sexo cortadas. Na nossa leitura, a ausência de ícones de sexo e drogas na ficha japonesa é um indício, não uma prova — os ícones da CERO não são uma lista exaustiva, e nenhuma fonte que lemos mostrou um corte confirmado.

Há ainda um detalhe que só existe por lá. Segundo a Xataka, por causa de regras locais, os códigos que vêm nas caixas japonesas de GTA 6 (a edição física, lembre-se, não tem disco) expiram 170 dias depois. Uma caixa esquecida na prateleira por seis meses pode chegar ao comprador com o código vencido.

Coreia: o primeiro grande teste de um novo órgão

Na Coreia do Sul, a decisão saiu do Game Content Rating Board (GCRB), entidade privada que assumiu em 1º de novembro de 2025 a análise de jogos de PC e console para adultos, antes feita pelo órgão estatal GRAC. A Inven Global chamou o GTA 6 de o título de maior visibilidade avaliado desde essa mudança. Os motivos listados: violência forte, conteúdo sexual e representação de drogas.

A série tem história no país. O GTA V levou a mesma classificação adulta em 2013, e a Coreia não costuma ser branda: em 2017, Danganronpa V3 teve a classificação negada por conteúdo considerado antissocial. A nota sul-coreana aparece como 19+ nas lojas, que é a forma como o país expressa a faixa adulta.

Um desencontro entre fontes: o GTA BOOM escreveu que a Coreia foi "o último grande mercado" a liberar o jogo, mas na mesma reportagem registra o Japão um dia depois. Pela ordem das datas, o último foi o Japão.

E no Brasil?

Aqui o processo andou antes e com mais transparência que em quase todo lugar. O Ministério da Justiça publicou a classificação no Diário Oficial da União em 9 de outubro, e o Portal Viciados localizou o parecer técnico — o Resumo da Análise nº 598/2026, assinado em 8 de outubro, no processo 08017.002322/2026-63. O resultado: não recomendado para menores de 18 anos, para PS5 e Xbox Series X|S, com distribuição oficial da Solutions 2 GO do Brasil.

Os descritores são quatro — conteúdo sexual, drogas, linguagem imprópria e violência —, mais o aviso de compras online. O que chama atenção é a fundamentação. Segundo o resumo publicado pelo Viciados:

  • O que definiu a faixa foi a apologia ou glamourização da violência e a apologia ao uso de drogas ilícitas.
  • O parecer não encontrou nenhum atenuante.
  • Violência e drogas foram agravadas pela frequência e pela relevância; no caso das drogas, também por como o conteúdo é valorizado na narrativa e na jogabilidade.
  • Na lista de conteúdos aparecem mutilação, morte intencional, sangue em destaque, violência gratuita, relações sexuais, nudez e prostituição — esta marcada como de alta relevância.

Um post que circulou nas redes falava em "drogas lícitas", o que parecia contradizer o resto da cobertura. As duas coisas estão no parecer: ele cita apologia ao uso de drogas lícitas e ilícitas, mas o fator determinante para os 18 anos foram as ilícitas.

Para o leitor daqui, vale lembrar que o nome do sistema é literal: a classificação é indicativa, uma orientação oficial para pais e lojas. O parecer completo está anexado ao registro; nós lemos o resumo publicado pelo Viciados, não a íntegra.

O quadro inteiro

Juntando o que foi publicado até 18 de outubro (os descritores de Alemanha, Austrália, Nova Zelândia e Oriente Médio vêm da compilação do GTA BOOM):

MercadoClassificaçãoO que pesou
EUA e Canadá (ESRB)M (17+)sangue, violência intensa, conteúdo sexual forte, nudez, drogas e álcool
Europa e Reino Unido (PEGI)18violência, sexo, drogas, nudez
Alemanha (USK)18violência drástica, drogas, modelos criminosos
Brasil (ClassInd)18conteúdo sexual, drogas, linguagem imprópria, violência
Japão (CERO)Z (18+)crime, violência
Coreia do Sul (GCRB)19+violência forte, conteúdo sexual, drogas
AustráliaR18+violência de alto impacto, cenas de sexo, uso de drogas
Nova ZelândiaR18cenas de sexo, nudez
Arábia Saudita e Emirados21+selo das lojas regionais

O PEGI foi o mais descritivo. Como a Hardware.com.br resumiu a partir da GamesRadar, a ficha europeia fala em armas capazes de causar decapitações e desmembramentos detalhados e em cocaína que pode ser carregada no inventário e consumida a qualquer momento. Na Austrália, segundo o GTA BOOM, o R18+ saiu em 27 de agosto e fica um degrau acima do MA15+ que o GTA V recebeu lá; a listagem anterior como X18 era quase certamente um erro. A primeira leva dessas classificações, com a ESRB e as cenas de sexo citadas na Nova Zelândia, nós já contamos nesta notícia.

O que ninguém confirmou

Nas fontes que lemos, a Rockstar não comentou nenhuma das classificações. Não se sabe se a versão japonesa terá cortes, nem quais seriam. As fichas confirmam que categorias de conteúdo existem no jogo, mas não confirmam cenas específicas que circularam nos vazamentos das últimas semanas. E nenhuma delas trata do modo online, que deve chegar depois do lançamento — se ele vai exigir revisão de alguma nota, ainda é pergunta sem resposta.