O documento tem 19 páginas e prevê, entre outras coisas, um avião “de exposição” com a pintura de Vice City, uma esteira de bagagem temática no Aeroporto Internacional de Miami e tampas de bueiro personalizadas no centro e em Brickell. É o pitch que o jornal local The Miamian obteve por pedido de acesso a registros públicos, e que agora emperra na Comissão do Condado de Miami-Dade, a menos de cinco semanas do lançamento de GTA 6, em 19 de novembro.
A história tem duas pontas que convém separar, porque a imprensa as mistura: de um lado, o que o condado já vendeu e está no ar; do outro, o que ainda é só proposta e pode morrer em 20 de outubro.
O que já está no ar
O condado recebeu US$ 975 mil por um letreiro “Welcome to Vice City” no teto do Kaseya Center, a arena do Miami Heat, por sete meses. A conta fecha com o que a prefeitura diz: cerca de US$ 139 mil por mês. O valor ficou US$ 25 mil abaixo do patamar de US$ 1 milhão que exigiria voto da comissão, e por isso o acordo foi fechado pelo gabinete da prefeita Daniella Levine Cava, sem passar pelos 13 comissários. Quem negociou foi o chefe de gabinete dela, Christopher Hudtwalcker. A conta dos US$ 25 mil é nossa, a partir do teto de US$ 1 milhão citado pela VGTimes.
A cidade de Miami e Miami Beach tocaram as próprias frentes, que não dependem do voto do condado: a cidade aprovou seis banners temporários de GTA 6 por até US$ 1,2 milhão, e Miami Beach liberou publicidade em concessões de praia (cadeiras e guarda-sóis) de até US$ 4 milhões. Os banners e a marca nas cadeiras entram em vigor em 15 de outubro. Já tratamos desse lado em quem aprovou o quê no marketing de Miami, e a coleção do Miami Heat segue de pé: o jogo “A Night in Vice City” está marcado para 18 de novembro, um dia antes do lançamento.
O que está em jogo agora
O que a comissão discute é outra coisa: a lista de ideias que a Rockstar levou para instalações do próprio condado. Segundo a reportagem do The Miamian, reproduzida pela GTA Boom, o pacote inclui:
- Aeroporto Internacional de Miami: uma “experiência de chegada” com aeronave de exposição adesivada, área de bagagem temática e carrinhos, esteiras e sinalização de marca;
- PortMiami (Terminal J): mural ou instalação inspirada em Port Gellhorn, a partir de contêineres, guindastes e navios de cruzeiro;
- Metromover e Metrorail: vagões adesivados e sinalização em estações como Government Center, Brickell e Bayfront Park;
- Centro e Brickell: caixas de utilidade ilustradas por artistas e as tampas de bueiro personalizadas;
- Rickenbacker Beach: moldura para fotos, escultura ou obra de arte pública;
- Tropical Park: um evento de cultura automotiva voltado para a família.
Nada disso está aprovado. Carlos Suarez, porta-voz da prefeita, confirmou à imprensa apenas que o condado teve “algumas conversas com a Rockstar sobre possíveis oportunidades”, e que qualquer ideia depende de aval do condado.
Quem propôs a quem?
As fontes divergem num detalhe que importa para a leitura política. A GTA Boom diz que a Rockstar enviou o material ao condado em 29 de junho. A Dexerto, contando a mesma história a partir do pitch de 19 páginas, diz que o condado apresentou a ideia à Rockstar nessa data. Nas páginas que lemos, não há como saber quem tomou a iniciativa. A data (29 de junho) é a mesma nas duas, e é o ponto em que os relatos coincidem.
A reação
A primeira onda de críticas veio em 3 de setembro. A xerife Rosie Cordero-Stutz foi direta: “Miami-Dade County não é Vice City”. Segundo a Dexerto, ela argumentou que Grand Theft Auto é uma franquia construída em torno de atividade criminosa, com retratos de assassinato, roubo, tráfico, roubo de carros e violência contra a polícia, e questionou o uso de patrimônio público para promover uma identidade fictícia assim. O comissário Juan Carlos Bermudez pediu mais transparência e disse não acreditar que se cogitasse rebatizar temporariamente ativos como o aeroporto.
Na reunião ordinária seguinte da comissão, o tom subiu. O comissário Rene Garcia liderou a oposição: “Estou muito desconfortável com toda essa história”, em tradução livre do que reportam GTA Boom e VGTimes, e defendeu que o condado não deveria se associar a um jogo que retrata Miami como refúgio de criminosos. Garcia também apontou o desequilíbrio de valores: segundo ele, a Rockstar gasta pelo menos US$ 150 milhões em marketing do jogo, enquanto o condado aceitou menos de US$ 1 milhão. A VGTimes ressalva que ele não explicou como chegou ao número; trate como estimativa dele, não como dado da Rockstar. (Outra nota do mesmo site chegou a apresentar os US$ 150 milhões como uma “campanha” do condado, e rotulou como rumor. Pelas reportagens que abrimos, é a estimativa de Garcia para o gasto total da Rockstar.)
O presidente da comissão, Anthony Rodriguez, propôs deixar a prefeita negociar acordos acima de US$ 1 milhão, e a proposta quase virou uma proibição geral. O comissário Oliver Gilbert adiou a votação que teria encerrado as negociações na hora. Danielle Cohen Higgins lembrou a política do condado que veda publicidade que promova pornografia, prostituição ou violência, e citou um precedente: em 2019, condado e Heat recusaram uma oferta de US$ 10 milhões de uma produtora adulta pelos direitos de nome da arena que hoje se chama Kaseya Center.
O gabinete da prefeita defende o preço do letreiro pelo tamanho, local e duração, e cita uma proposta da FIFA, ainda não executada, de US$ 100 mil a US$ 250 mil por mês antes das taxas.
O que ainda não se sabe
Nas fontes que lemos, não há resposta para três perguntas. Primeiro, o que exatamente será votado em 20 de outubro além do fim das conversas do condado: a data aparece em todos os relatos, mas o texto da moção, não. Segundo, quanto a Rockstar toparia pagar por instalações no aeroporto e no porto. Terceiro, se algo disso aconteceria antes de 19 de novembro, já que montar um avião adesivado ou vagões envelopados leva tempo.
Na nossa leitura
O letreiro do Kaseya Center, o dinheiro de banners e as cadeiras de praia já estão decididos e não dependem do voto. O que está em risco é só a camada mais ambiciosa, a que transformaria o desembarque em Miami em cenário do jogo. Se a comissão encerrar as conversas em 20 de outubro, o marketing de rua de GTA 6 em Miami continua, só que sem aeroporto, porto e transporte público. Para o jogador no Brasil, nada disso muda o jogo nem a data; o que muda é quão visível será a campanha para quem visitar a cidade em novembro.
