O letreiro rosa e branco com os dizeres "Welcome to Vice City" foi erguido por helicóptero, letra por letra, no teto do Kaseya Center, a arena do Miami Heat, em 22 de setembro de 2026. É a parte concreta da história. Todo o resto da campanha que a Rockstar e a prefeitura de Miami discutem para o lançamento de GTA 6, em 19 de novembro, está em estágios muito diferentes de aprovação, e as manchetes tendem a misturar tudo num pacote só. Aqui vai a separação.
O que já existe: o letreiro no Kaseya Center
Segundo a Beebom, que atualizou a matéria em 23 de setembro, as letras foram levantadas por helicóptero e depois fixadas na área central do telhado. A arena é a casa do Miami Heat, o que faz o letreiro ficar bem visível do alto. O veículo não informa as dimensões.
O valor que circula é de US$ 975 mil que o condado de Miami-Dade receberia da Rockstar pelo acordo. A Beebom trata o número como "reportado", e é assim que ele deve ser lido: nas páginas que abrimos, nenhum documento oficial aparece. Também não conseguimos, nas fontes que lemos, identificar quais autoridades assinaram o acordo.
Quem acompanha o site já viu a outra ponta dessa parceria com o time: a coleção de roupas Miami Heat x Rockstar, que cobrimos em Miami Heat vira Vice City. O letreiro é a versão em escala de prédio da mesma ideia.
O pitch de 19 páginas que vazou por lei de acesso
A história maior começou no fim de agosto, quando o jornalista Francisco Alvarado, do The Miamian, obteve por pedido de registros públicos da Flórida um documento de 19 páginas: a proposta que o condado de Miami-Dade fez à Rockstar. Há uma divergência de data entre os veículos. A Dexerto diz que a apresentação à Rockstar foi em 29 de junho; o Hoodline fala em julho de 2026. Como nenhum dos dois cita o documento em si, deixamos a data como "entre o fim de junho e julho".
As ideias do documento, somando as duas fontes:
- transformar temporariamente partes do Aeroporto Internacional de Miami em "Vice City Airport";
- envelopar uma aeronave e vagões do Metromover com a arte do jogo;
- esteiras de bagagem temáticas;
- tampas de bueiro personalizadas no centro e em Brickell;
- um festival de cultura automotiva no Tropical Park (citado pelo Hoodline).
Os valores dessa proposta não foram divulgados. A Dexerto avisa que nada foi formalmente aprovado, e o Hoodline, citando a GTA BOOM, diz o mesmo sobre a parte do condado.
Quem é contra, e por quê
Em 3 de setembro, a xerife do condado, Rosie Cordero-Stutz, e o comissário Juan Carlos Bermudez se posicionaram contra. A xerife disse que "Miami-Dade County is not Vice City" (em tradução livre, "o condado de Miami-Dade não é Vice City") e lembrou que a franquia gira em torno de crime: assassinato, roubo, tráfico, roubo de carros e violência contra policiais, justamente o que os agentes dela tentam evitar. A pergunta dela, em essência, é que mensagem o poder público passa ao usar patrimônio do condado para vender uma identidade fictícia construída sobre isso.
Bermudez pediu transparência sobre as conversas e disse não acreditar que a rebatização temporária de ativos importantes, aeroporto incluso, estivesse sendo considerada. O gabinete da prefeita Daniella Levine Cava, por outro lado, continua aberto: um porta-voz disse ao Axios que a campanha poderia gerar receita e mostrar Miami-Dade ao público global do jogo, desde que passe pelo processo de revisão e aprovação.
Vale notar o contraste com o que a Rockstar diz de si mesma. Em outubro, a equipe do jogo contou como pesquisou a Flórida (ver a pesquisa de campo da Rockstar na Flórida), com ex-policiais e visitas a clubes e aos Everglades. A relação com a cidade real é, ao mesmo tempo, matéria-prima do jogo e motivo de desconforto para parte das autoridades locais.
A outra frente: banners no centro da cidade de Miami
Separada do condado, a cidade de Miami tem uma ordenança patrocinada pelo comissário Damian Pardo. Ela flexibiliza as regras de banners gigantes temporários numa "área de evento" no centro, delimitada pela NE 5th Street, o Rio Miami, a Baía de Biscayne e a NE 2nd Avenue.
As fontes divergem nos números, e a divergência é informativa:
- O Hoodline (6 de setembro) fala em até seis banners a US$ 202 mil cada, cerca de US$ 1,2 milhão no total, destinados ao parque Underdeck, e não ao caixa geral da prefeitura.
- A GTA BOOM, depois de ler o arquivo legislativo da cidade, fala em taxa de aplicação de US$ 208 mil para banners acima de 5.000 pés quadrados, e diz que o número subiu em relação ao anterior. Na nossa conta, seis banners a US$ 208 mil dariam US$ 1,248 milhão; a GTA BOOM não especifica o número de banners, então isso é projeção nossa, não dado das fontes.
As condições se repetem nas duas: cada banner precisa de licença individual, a arte precisa ser aprovada pela Take-Two, e associações de moradores do centro também têm que concordar. A janela vai de 15 de outubro a 31 de dezembro, com máximo de 56 dias. Contando no calendário, essa janela tem 78 dias, então o limite de 56 provavelmente vale por exposição, e não para a campanha toda. Isso também é leitura nossa.
O Underdeck Heritage Trail é um parque linear de 33 acres que reconectaria Overtown ao centro sob a nova ponte I-395. O Hoodline conta que o governo federal retirou, em agosto de 2025, uma verba de US$ 60,3 milhões, e que o parque de US$ 82 milhões enfrenta um rombo grande. Ou seja: o dinheiro da Rockstar tem destino específico e um buraco concreto para tapar.
E Miami Beach?
Miami Beach é outro município, com processo próprio. Pelo que a GTA BOOM descreve, a comissão votou por 4 a 3 autorizar o gerente da cidade a negociar uma publicidade discreta do jogo em cadeiras e guarda-sóis de praia, com algo entre US$ 3 milhões e US$ 4 milhões indo para um campo de futebol americano. Os termos ainda estavam em negociação. Alguns veículos resumiram essa votação como se fosse a de Miami, o que embaralha a história.
O que as fontes que lemos não dizem
- Se a ordenança dos banners foi votada. O Hoodline dizia que o voto estava marcado para 10 de setembro; a GTA BOOM registra "nenhum voto, status ou data de vigência". Não achamos resultado em páginas que abrimos.
- Quem assinou o acordo do letreiro e se o valor de US$ 975 mil foi confirmado por documento.
- Se a ideia do aeroporto "Vice City Airport" seguirá adiante. Pelo que vimos, está parada.
- Qualquer valor para o pacote do condado.
Outra advertência: o agregador VGTimes listou em 12 de outubro uma manchete sobre uma campanha de US$ 150 milhões em Miami-Dade. Não achamos esse número em nenhuma página que abrimos, então não o usamos.
E para quem está no Brasil?
Na prática, nada muda na hora de comprar ou jogar: é marketing de rua em outro país. O que interessa ao leitor daqui é o sinal. A Rockstar gosta de ancorar Vice City na Miami real, e a cidade real está dividida sobre aparecer como cenário de um jogo cheio de crime. Se a data de 15 de outubro for mantida, em poucos dias dá para ver se os banners realmente sobem. Voltamos ao assunto se houver confirmação.
