Entre 23 de outubro, quando Call of Duty: Modern Warfare 4 chegou às lojas, e 19 de novembro, data de GTA 6, o calendário de grandes lançamentos para PS5 e Xbox ficou quase vazio. Para Mat Piscatella, diretor de videogames da Circana, a empresa que mede as vendas de jogos nos Estados Unidos, isso foi um erro coletivo.

"O medo de muitas equipes de colocar o jogo na mesma janela de GTA é completamente exagerado", disse ele em entrevista a Rachel Kaser, da GamesBeat, publicada em 23 de outubro (todas as falas dele aqui são tradução livre). A frase foi repercutida nesta terça-feira (27) pela Dexerto e pela GTA BOOM, e virou o assunto do dia entre quem acompanha o mercado.

O que Piscatella disse, nas palavras dele

O analista não diminui o jogo. "GTA vai ser um jogo gigantesco", afirmou, lembrando que é literalmente o primeiro lançamento desse porte em 13 anos, desde GTA V. O ponto dele é outro: tamanho não significa que todo mundo vai jogar.

"Nem todas as 49 milhões de pessoas que têm um PS5 ou um Xbox Series nos EUA vão se interessar por isso", disse. E completou com o exemplo mais direto da entrevista: quem não quiser GTA "vai jogar Fortnite ou Roblox".

Sobre a debandada das editoras, ele foi menos diplomático. "No fim das contas, muitas dessas mudanças e desse afastamento parecem mais irracionais do que racionais, mas essa é só a minha opinião." E resumiu o efeito prático: a fuga "deu a GTA uma janela totalmente aberta, porque todo mundo saiu". Para ele, tudo isso é "mais medo do que qualquer outra coisa".

A Dexerto puxou a manchete para o lado de Fortnite e Roblox ("GTA 6 não vai prejudicar" os dois); a GTA BOOM preferiu o ângulo do pânico das editoras. É a mesma entrevista — a diferença é só de recorte.

O risco que ele enxerga não é o jogo, é o console

A parte menos citada da conversa talvez seja a mais interessante. Piscatella acha que a grande incógnita do fim de ano está no hardware. Ele comparou o preço atual de um console, "por volta de US$ 700", com o que o consumidor espera pagar, e lembrou que a base instalada de PS3 e Xbox 360 na época de GTA V era proporcionalmente maior do que a de hoje. Em outras palavras: GTA 6 pode vender muito, mas só para quem já tem — ou topa comprar — um PS5 ou um Xbox Series.

Ele também deu números sobre setembro, quando as vendas de PS5 subiram 22% nos EUA (assunto que já tratamos em PS5 sobe 22% em setembro: GTA 6 ou Wolverine?). Na conta dele, o impacto positivo "provavelmente foi 70% puxado por Wolverine e 30% por GTA VI" — e ele mesmo chama esses números de imprecisos. Do lado da Microsoft, a avaliação foi seca: "os números do Xbox Series foram ruins".

Quanto à pré-venda, ele reconhece que tudo o que sai da Take-Two "soa muito positivo" (os dados da Sensor Tower estão em nossa matéria sobre a pré-venda digital). Para novembro, ele espera gasto forte. "Depois vamos ver o que acontece em dezembro e janeiro."

Como ficou o calendário

A lista abaixo junta datas de fontes diferentes; as marcadas com asterisco aparecem só no levantamento da GTA BOOM e não conferimos em outro veículo.

DataJogoPlataforma
23/10Call of Duty: Modern Warfare 4PS5, Xbox Series, PC, Switch 2
03/11*Godzilla Destroy All Monsters Melee Remastered—
05/11The Legend of Zelda: Ocarina of Time (remake)só Switch 2
05/11*Crymelight—
12/11*Barbie Rewind—
19/11GTA 6PS5 e Xbox Series
24/11*Gothic 3 Classic—

No mesmo 19 de novembro ainda sai a expansão Ticket to Dizzyworld de Goat Simulator 3 (contamos aqui), e a GTA BOOM cita um título da Devolver Digital no mesmo dia.

Fazendo a conta: Modern Warfare 4 abriu 27 dias antes de GTA 6, e o remake de Ocarina of Time chega exatamente 14 dias antes. São os dois únicos lançamentos de peso do período — e um deles nem disputa o mesmo público, já que roda só no Switch 2, console que não vai receber GTA 6 (a conversa entre Nintendo e Take-Two sobre isso está nesta matéria).

A Activision, aliás, já falava em convivência. O diretor de marketing Tyler Bahl disse ao The Game Business que GTA 6 e o novo Call of Duty são "os dois maiores jogos do ano", com um "sem ofensa a Zelda" no meio (leia a matéria completa). A tese dele é que mais gente tirando o pó do PlayStation e do Xbox por causa de GTA significa mais jogadores para Call of Duty também. Segundo a VGTimes, uma pesquisa da Circana apontava que cerca de 15% dos jogadores de console e PC nos EUA pretendiam comprar Modern Warfare 4, contra 10,4% para o Ocarina of Time.

O que a história da série diz

Piscatella não está sozinho, e a história ajuda o argumento dele. A GTA BOOM lembra dois precedentes:

  • GTA IV, abril de 2008: o jogo puxou as vendas do mercado americano para cima, mas Mario Kart Wii, lançado no mesmo mês, vendeu mais que a versão de PS3 de GTA IV e terminou em segundo no ranking geral.
  • GTA V, setembro de 2013: ficou com mais da metade de todo o dinheiro gasto em software naquele mês, e mesmo assim Madden NFL 25, NBA 2K14 e FIFA 14 entraram logo atrás na lista.

O ex-desenvolvedor da Rockstar Felipe Busquets, que passou cerca de 12 anos no estúdio (2005–2016), já tinha dito algo parecido em junho, num post no LinkedIn resumido pela GTA BOOM: ao fugir para setembro, cerca de uma dúzia de jogos acabou se espremendo na mesma janela, disputando o mesmo público e o mesmo tempo de stream — um cenário que, para ele, pode ter sido pior do que encarar novembro. O próprio Piscatella diz que setembro provavelmente ficou lotado demais, mas que o mercado mostrou fôlego para muitos títulos ao mesmo tempo.

O que ninguém confirmou

Nas fontes que lemos, quase nenhuma editora disse com todas as letras que mudou a data de um jogo por causa de GTA 6. O levantamento da GTA BOOM sobre jogos que "fugiram" do lançamento admite que a Microsoft nunca citou GTA ao marcar Forza Horizon 6 para maio, e que a Pearl Abyss também não citou o jogo ao fixar Crimson Desert em março. A ligação é feita pela imprensa, a partir das coincidências de calendário — plausível, mas não declarada.

Também não se sabe quanto do "mais irracional do que racional" vale fora dos EUA. A Circana mede o mercado americano, e todos os números desta matéria (os 49 milhões de consoles, a alta de setembro, a pesquisa de intenção de compra) são de lá.

E para quem joga no Brasil?

Na prática, o calendário vale igual por aqui: as datas de Modern Warfare 4, do remake de Zelda e de GTA 6 são as mesmas, e o recado de Piscatella sobre hardware pesa ainda mais num país onde console sempre custou caro. Para quem já tem PS5 ou Xbox Series, o cenário é tranquilo: novembro vai ser praticamente só de GTA 6. Se ainda está decidindo qual edição comprar, o comparativo está em Standard vs Ultimate.

Na nossa leitura, o argumento de Piscatella acerta no diagnóstico e erra só no tom de surpresa. Em 2008 e 2013 havia espaço para outros jogos ao lado de GTA; em 2026, as editoras preferiram não testar a regra — e quem vai descobrir se ela ainda vale são as poucas que ficaram.